15/10/2017 16:09:56 - Atualizado em 15/10/2017 16:11:43


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O Futuro Anterior

 

O tempo apresenta-se, para Lacan, como uma instância lógica que engendra o sujeito. O sujeito do inconsciente é um efeito que só é atingido a partir da fundação de uma estrutura de linguagem que se configura em uma alternância temporal. “O tempo lógico e a asserção da certeza antecipada’. Assim, ele apresenta um problema lógico, que se caracteriza como sofisma sobre três prisioneiros. Ele mostra como o tempo incide num processo que se efetua por escansões, não por continuidade.

Um diretor de uma prisão escolhe três prisioneiros e lhes diz que o vencedor de um jogo poderá ganhar a liberdade. Explica que há cinco discos: três brancos e dois pretos. Depois de colado um disco nas costas de cada um dos três prisioneiros, eles deverão descobrir qual disco corresponde ao seu, e o primeiro a sair da cela com a resposta será o vencedor. O diretor então, sem que eles saibam, cola um disco branco em cada umdos prisioneiros. Nenhum prisioneiro tem acesso a cor de seu próprio disco, pode ver apenas a cor dos demais.

Cada um poderá examinar seus companheiros, sem comunicar o resultado da inspeção, e o primeiro que puder deduzir sua própria cor é quem se beneficiará da liberdade. Para ter a liberdade, a conclusão do problema deverá ser fundamentada em motivos lógicos.

O primeiro a sair explica: penso que, se eu fosse preto, transpondo-me para o lugar dos outros dois, ao me ver preto e supor que também fosse preto, evidenciaria para o terceiro que ele seria branco, já que só existem dois discos pretos. Como ninguém saiu com essa evidência, deduzo que não sou preto, sou branco. Trata-se de um sujeito de pura lógica. O que determinou a conclusão do primeiro a sair foi o tempo de parada dos outros dois.

As sessões psicanalíticas em tempo não determinado se encontram em um plano que não é o da burocracia e sim o da lógica do inconsciente. A temporalidade não pode ser externa à sessão analítica, em que o analista fica submetido a ela e o analisante recebe garantias. Nesse contexto, o ato analítico não é entendido como uma ação, mas uma consequência da associação livre do paciente.

                                                         Luiz Roberto Duncan
                                                                Psicanalista