18/06/2017 14:32:50 - Atualizado em 18/06/2017 14:34:04


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O Amódio

 Freud, ao falar sobre os pares antônimos, propõe a antítese amar/odiar como sendo a única expressão da transformação de uma pulsão em seu contrário. Assim, Freud considera o amor uma pulsão que caminha com seu semelhante: o ódio. Não raro amor e ódio apresentam-se juntos, norteados para um mesmo objeto, o que se constitui como paradigmático da chamada ambivalência afetiva. Segundo Freud, a história das origens e das relações dos dois termos torna compreensível essa ambivalência.

Enquanto familiaridade com o objeto, o ódio é anterior ao amor, tendo nascido da repulsa primitiva por parte do eu em relação ao mundo exterior, e é somente com a entrada do objeto na fase do narcisismo primário que se estabelece a antítese e a possibilidade de seu comparecimento em relação ao mesmo objeto caracterizando-se, assim, a dita ambivalência. Não escapou a Freud que a relação amorosa com um determinado objeto ao se romper repetidamente dá lugar ao ódio.

 No Seminário 20, Lacan afirmaque: “[...] a análise nos incita a esse lembrete de que não se conhece nenhum amor sem ódio”. Lacan, então, criou o neologismo hainamoration. Quando ele passa a considerar o amor no feminino, ainda nesse Seminário nomeia o extremo do amor de “‘a’ verdadeira amor” afirma: “a verdadeira amor desemboca no ódio”.

Assim, oamor não está solitário, ele tem seu semelhante, que é o ódio: eles têm uma relação complexa, “amodiosa”, que pode promover uma série de desordens. Lacan, criouo neologismo “amódio” como síntese dialética entre amor e ódio. Somos todos seres amódicos: amamos e odiamos com igual intensidade, muitas vezes o mesmo objeto. Amar e odiar são paixões que vivem abraçadas para todo o sempre.

Amar e odiar são categorias afetivas que determinam a relação do Eu com os objetos do mundo exterior, sejam eles pessoas ou coisas. Amar é querer, desejar estar junto. Odiar é o estado afetivo que nos impulsiona à aversão, à fuga do objeto hostil. O ódio é sempre animoso e não raro tende ao desmoronamento do objeto. 

 Lacan caracteriza o amor como uma fascinação que visa inteirar a impossibilidade da relação sexual. Assim, ele surgesob a marca do impossível, prometendo que o sentido sexual vai parar de não se escrever. Porém, o amor não sustenta seu comprometimento. Mas, apesar de tudo, um homem acredita desejar e uma mulher acredita amar. É essa quimera do encontro com o impossível, que torna o amor tão apaixonante, fazendo com que cada um de nós o procure sempre.

                                                                 Luiz Roberto Duncan
                                                                      Psicanalista


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